Porto Ferreira Ontem – Os principais jogos da história ferreirense (I)*
Time do Club Athletico Paulistano. Da esquerda para a direita, de pé: Antônio Prado Júnior, Orlando Pereira, Filó, Mário, Fried, Junqueira, Netinho e Mariano Procópio, não identificado; ajoelhados: Barthô, Sérgio, Nondas, Kuntz, Abatte e Clodoaldo, 1925, França. Fonte: Club Athletico Paulistano.

Da mesma forma que ocorre com aquelas cidadezinhas interioranas, onde os coronéis ditam as normas, com o município do balseiro não foi diferente, haja vista a forte influência – positiva e progressista – advinda da família Procópio de Carvalho.

Em quase todas as situações de benefícios públicos, inerentes às primeiras décadas da jovem Porto Ferreira, destacam-se gestos filantrópicos da emérita família mineira.

Assim, por meio das grandes amizades nutridas pelos “Procópio” para com autoridades respeitadas em âmbito nacional, as terras ferreirenses acolheram ilustres personagens e, felizmente, foi contemplada por empreendimentos inquestionáveis.

Em 1923, iniciou a construção do Hospital Dona Balbina, por meio da doação de 200 contos de réis – cerca de 2 milhões e meio de reais -, proveniente do coronel Procópio de Araújo Carvalho. No ano seguinte, o nosocômio foi inaugurado, a 31 de março, e cinco dias depois uma visita inusitada registrou a memória dos cidadãos: a presença do time de futebol do Club Athletico Paulistano.

O ferreirense Mariano Procópio de Araújo Carvalho, sobrinho do coronel Procopinho, foi um dos que possibilitaram a vinda do mais aclamado time brasileiro. Na época, Mariano ocupava um dos três cargos de vice-presidente do Club Athletico; auxiliado por seu irmão João Procópio Sobrinho, mais a intercessão do Dr. Carlindo Valeriani, Mariano agendou a vinda do glorioso time para disputar uma partida de futebol, em benefício do Hospital Dona Balbina.

Pela primeira vez, nas terras ferreirenses, o “Paulistano” jogou contra o Porto Ferreira Futebol Clube, a 5 de abril de 1924, vencendo-o por 3 a 0.

Segundo Flávio da Silva Oliveira (2005, p. 159): 

[...] No ano seguinte com a mesma finalidade filantrópica, o “Paulistano” voltou a P. Ferreira6 e disputou duas partidas, vencendo ambas: no dia 11 de outubro, também por 3x0, quando contou com a presença de Washington Luiz, presidente do Estado e candidato à Presidência da República e do Senador Procópio de Araújo Carvalho; e no dia imediato, quando fomos vencidos por 2 a 0. No ano de 1926 mais uma vez o famoso Clube nos visitou e, em jogo realizado no dia 25 de julho, empatou com o selecionado que formamos, sem abertura de contagem. Nosso esquadrão estava assim constituído: Calim, Maiése II e Quinzinho; Leonildo, Peres e Nelson; Rato, Raul, Orestes, Maiése I e Zico. Destes onze jogadores cinco eram de Porto Ferreira: Calim (Carlos Alberto Tiziani), Quinzinho (Joaquim Marques Castelhano), Leonildo Braga, José Peres Alonso e Nelson Mariano. Leme nos forneceu Rato, Raul, Orestes e Zico e de Descalvado vieram os dois Maiése. O quadro visitante apresentou-se com a seguinte escalação: Nestor, Clodoaldo e Bartô; Abate, Nondas e Vilela; Roque, Carriano, Friedenreich, Seixas e Netinho. Todos os jogadores foram agraciados com medalhas de ouro [...] 

Sobre a organização de um dos jogos, é interessante conhecer a reportagem, conforme veiculou no O FERREIRENSE (11.10.1925, p. 1-2): 

São nossos hospedes os distinctos rapazes que compõem a delegação do Club Athletico Paulistano. O que representa essa veterana sociedade entre as suas congêneres em todo o Brasil dil-o eloquentemente os seus annaes esportivos todo cheio de triumphos e glorias no campo da lucta e no meio social.

Sociedade fundada em 1900 vem desde essa epoca, de victoria em victoria, elevando o seu nome e o do Brasil agora com a recente viagem a Europa onde foi admiradíssimo não só o seu jogo como o cavalheirismo, disciplina e distincção dos seus membros.

E será esse mesmo conjuncto que representou o C. A. Paulistano na Europa que enfrentará hoje o combinado Ferreirense, formado por elementos do Porto Ferreira F. C. e os restantes de algumas cidades do interior deste Estado.

Embora o combinado local não se julgue apto a bater o seu adversário de hoje, esperamos, todovia apreciar uma lucta cheia de lances emocionantes.

Friendereich, Clodoaldo, Barthô, Mario Andrade, Formiga e Filó são jogadores que por si só garantem o brilhantismo de uma partida de futebol. O jogo será em benefício do Hospital Dona Balbina, será abrilhantada por uma banda de música.

Os quadros apresentar-se-hão em campo com a seguinte organização:

PAULISTANO – Nestor, Bartô, Clodoaldo, Villela, Mestres, Abate, Filó, Mário; Arthur; Seixas e Formiga.

COMBINADO FERREIRENSE – Bodelon, Petrelli, Melinho, Marques, Garcia, Eneas; Perez; Leonildo; Quinzinho, Zico e Calim.

Pede-nos o sr. Mariano Procopio encarregado da fiscalização do campo, avisar o público que, para maior regularidade na entrada de pedestres e automóveis ficou estabelecido o seguinte: a entrada de vehiculos será pela r. Da. Balbina e a sahida será pela rua 15 de Novembro. A entrada e a sahida de pedestres será exclusivamente pela rua João Procópio.

Os preços das entradas serão os seguintes:

Automóvel com “chauffeur” fardado – 10$000

Cada pessoa dentro do auto 5$000

Entrada para qualquer outra dependencia do campo 5$000

Pede-nos ainda o sr. Mariano Procopio tornar público que em absoluto permitirá que qualquer pessoa entre no campo sem estar munida do seu ingresso, dispondo elle para isso de praças para repellir os intrujões e que os itinerários tanto para pedestres como para vehiculos devem ser obedecidos por todos para evitar possíveis desastres. (encerra na próxima semana)  



Por Miguel Bragioni
Pesquisador da história de Porto Ferreira 

* Extraído do capítulo 9 do livro Aspectos Históricos de Porto Ferreira.

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